Sobre este blog

Ser mestre é ser um semeador; não qualquer um deles, entretanto, aquele semeador que não escolhe o solo em que vai lançar sua semente e que não se queixa ou questiona se o solo é seco, árido ou fértil, porque o essencial é semear...



15 de abr de 2014

Aos alunos do 3º ano E

A postagem abaixo é pertinente à aula em PowerPoint que vocês assistiram na  2ª feira a respeito do Pré-Modernismo no Brasil.
Exploraremos a obra "Os Sertões," de Euclides da Cunha, que iniciou o movimento. Queiram, por gentileza, imprimir o texto abaixo:

Trecho do romance regionalista pré-moderno (Euclides da Cunha) –www1.folha.uol.com.br/fol/Brasil500/histcanudos12.htm
A Terra
“Ao sobrevir das chuvas, a terra, como vimos, transfigura-se em mutações fantásticas, contrastando com a desolação anterior. Os vales secos fazem-se rios. Insulam-se os cômoros escalvados, repentinamente verdejantes. A vegetação recama de flores, cobrindo-os, os grotões escancelados, e disfarça a dureza das barrancas, e arredonda em colinas os acervos de blocos disjungidos -de sorte que as chapadas grandes, entremeadas de convales, se ligam em curvas mais suaves aos tabuleiros altos. Cai a temperatura. Com o desaparecer das soalheiras anula-se a secura anormal dos ares. Novos tons na paisagem: a transparência do espaço salienta as linhas mais ligeiras, em todas as variantes da forma e da cor.Dilatam-se os horizontes. O firmamento, sem o azul carregado dos desertos, alteia-se, mais profundo, ante o expandir revivescente da terra.E o sertão é um vale fértil. É um pomar vastíssimo, sem dono.Depois tudo isto se acaba. Voltam os dias torturantes; a atmosfera asfixiadora; o empedramento do solo; a nudez da flora; e nas ocasiões em que os estios se ligam sem a intermitência das chuvas -o espasmo assombrador da seca."
O HOMEM
"O sertanejo é, antes de tudo, um forte. Não tem o raquitismo exaustivo dos mestiços neurastênicos do litoral.A sua aparência, entretanto, ao primeiro lance de vista, revela o contrário. Falta-lhe a plástica impecável, o desempeno, a estrutura corretíssima das organizações atléticas.É desgracioso, desengonçado, torto. Hércules-Quasímodo, reflete no aspecto a fealdade típica dos fracos. O andar sem firmeza, sem aprumo, quase gingante e sinuoso, aparenta a translação de membros desarticulados. Agrava-o a postura normalmente abatida, num manifestar de displicência que lhe dá um caráter de humildade deprimente. A pé, quando parado, recosta-se invariavelmente ao primeiro umbral ou parede que encontra; a cavalo, se sofreia o animal para trocar duas palavras com um conhecido, cai logo sobre um dos estribos, descansando sobre a espenda da sela. Caminhando, mesmo a passo rápido, não traça trajetória retilínea e firme. Avança celeremente, num bambolear característico, de que parecem ser o traço geométrico os meandros das trilhassertanejas. (...) 
É o homem permanentemente fatigado."

A LUTA 

"Concluídas as pesquisas nos arredores, e recolhidas as armas e munições de guerra, os jagunços reuniram os cadáveres que jaziam esparsos em vários pontos. Decapitaram-nos. Queimaram os corpos. Alinharam depois, nas duas bordas da estrada, as cabeças, regularmente espaçadas, fronteando-se, faces volvidas para o caminho. Por cima, nos arbustos marginais mais altos, dependuraram os restos de fardas, calças e dólmãs multicores, selins, cinturões, quepes de listras rubras, capotes, mantas, cantis e mochilas...A caatinga mirrada e nua, apareceu repentinamente desabrochando numa florescência extravagantemente colorida no vermelho forte das divisas, no azul desmaiado dos dólmãs e nos brilhos vivos das chapas dos talins e estribos oscilantes...Um pormenor doloroso completou essa encenação cruel: a uma banda avultava, empalado, erguido num galho seco, de angico, o corpo do coronel Tamarindo.Era assombroso... Como um manequim terrivelmente lúgubre, o cadáver desaprumado, braços e pernas pendidos, oscilando à feição do vento no galho flexível e vergado, aparecia nos ermos feito uma visão demoníaca."

13 de abr de 2014

Ao 1º ano F


Conforme combinamos, a nossa interação vai além das aulas de atividades,  análises de textos e produção textual à participação virtual por intermédio dos blogs. Esses textos que posto abaixo são exemplos da Era medieval que devem ser estudados.Queiram, por gentileza, imprimi-los para as próximas aulas para que possamos finalizar o conteúdo do Trovadorismo. Na impossibilidade de interagirem dessa forma, entrem em contato na sala de aula.Obrigada. (Por medida econômica selecionem apenas os textos das cantigas).

CANTIGA DE AMIGO (Martim Codax)

Ondas do mar de Vigo,
'a se vistes meu amigo!B         1º par
ai Deus, se verrá cedo! refrão


Ondas do mar levado,A
Se vistes meu amado!B
E ai Deus, se verrá cedo!refrão

Se vistes meu amigo,B                                                 2º par
O porquê eu sospiro  C
E ai  Deus, se verrá cedo! refrão

Se vistes meu amado, B
Por que hei gran cuidado! C
E ai Deus, se verrá cedo! refrão

Paráfrase

Ondas do mar de Vigo 
Se vires meu namorado!
 
Por Deus, (digam) se virá cedo!

Ondas do mar revolto, 
Se vires o meu namorado!
 
Por Deus, (digam) se virá cedo!

Se vires meu namorado, 
Aquele por quem eu suspiro!
 
Por Deus, (digam) se virá cedo!

Se vires meu namorado 
Por quem tenho grande temor!
 
Por Deus, (digam) se virá cedo!
 

Essa cantiga é de amigo, o tema é à espera do namorado e a angústia provocada pela demora em chegar. Analise o eu lírico, faça um levantamento das características desse tipo de cantiga. As cantigas eram circuladas através de pergaminhos e sua visualização e reprodução eram autorizadas:o pergaminho Vindel (encontrada e vendida pelo madrileno Pedro Vindel-1913) e o Sharrer descoberto por Harvey Sharrer-1990) são exemplo disso.

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Cantiga de escárnio e maldizer 

Martim jograr, que gran cousa (JOÃO GARCIA DE GUILHADE)


*Martim jograr, que gran cousa:
Já sempre convosco pousa*
Vossa molher!

Ve[e]des m’andar morrendo,
E vós jazedes* fodendo
Vossa molher!

Do meu mal nom vos doedes*,
E moir’eu, e vós fodedes
Vossa molher!
Cantiga de maldizer
Crítica direta-uso de palavrões e forma direta de satirizar, na maioria são de mestria, 31% contêm paralelismo.
*Martim – segundo pesquisas Martim faz referência a algum jogral da época( eram muitos os Martins: Codax,de Guinzo etc. Pode ser da corte castelhana onde Guilhade passou.
*pousa- dorme.
*jazedes- referência ao verbo jazer- estar deitado.
*doedes- doer-se, condoer-se, ter pena.
Muitos nobres escreveram cantigas: destaques para os reis: Afonso Henriques e seu neto, D. Dinis.
Os “jograis” eram trovadores populares
As cantigas de amor, de origem provençal palaciana não deveriam utilizar paralelismos (repetições de versos, do tipo refrão mais usados nas outras cantigas populares). Por essa razão denominavam-se cantigas de mestria.
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Cantiga de escárnio

NUNCA [A] TAM GRAN TORTO( JOÃO GARCIA DE GUILHADE)

Nunca a tam gran torto* vi
com'eu prendo*d'um infançom*
e quantos e na terra som
todo'lo tem por assi
o infançom, cada que* quer
e nulha rem* nom dá por mi
E já me nunca temerá, 
Ca* sempre me tev'em desdém,
des i*ar* quer sa molher bem
e já sempr'i filhos fará
-siquer* três filhos que fiz i,
fillha- os todos pera si:
O demo lev'o que m'en dá!
Em tam gram coita viv'hoj'eu
que nom poderia maior:
vai se deitar com mia senhor
e diz do leito que é seu
e deita-se a dormir em paz;
des i, se filh'ou filha faz,
*nõn'o quer outorgar por meu!

Cantiga de escárnio
*torto- injúria, infâmia, ofensa.
*prendo- tomar, receber./ infançon-cavaleiro nobre, infanção.
*têm-teer-achar, considerar.
*Cada que-cada vez que.
*nulha rem-nada, coisa nenhuma.
*Ca- pois, porque.
*des i- além disso./ *ar- também
*siquer-até mesmo.
*nõn'o quer outorgar por meu- não quer reconhecerque é meu.
Estudem as características desse texto:
Crítica indireta; uso do equívoco: tentativa de ludibriar o sentido( usar suavização-eufemismo ou ironia)
Cantiga de mestria (sem paralelismo)
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